Já ouvi dizer que em vinte e uma repetições a gente se acostuma. Nem
setenta vão me fazer conformar com a vida como ela é. Eu quero mais, eu quero
mudar, eu quero ser melhor. E às vésperas do seu aniversário, você entra
naquela de o-que-estou-fazendo-aqui e quer acreditar que cresceu e evolui, ano
após ano. Eu fico por aqui, procurando castelos e grandes feitos, ou realizações
e... Nada. Continuo a mesma coisinha de sempre.
Minhas teorias continuam as mesmas também. Aquela velha história de tudo
que vai, volta. Aquela que fala, que se nós dermos o nosso melhor, o universo
se encarrega do resto e ainda aquela outra, que diz que nós levamos vários
tombos na vida, só para aprender a levantar e seguir em frente. E que viver é a
coisa mais bonita que existe.
Na verdade, esse momento de retrospectiva serve só como consolo. Em
vinte e dois anos aprende-se muito pouco, mas o suficiente para reconhecer
isso. E hoje, não é sobre o que se passa lá fora, mas o que fica aqui dentro.
Não é sobre mudar, mas se conhecer. E eu posso dizer que me conheço mais que
ontem, procuro ser melhor que semana passada e percebo que ainda que eu seja a
mesma, alguma coisa mudou - agora sobre aqui fora. Os cenários, as pessoas, a
rotina mudou. E hoje eu consigo preencher meus dias sem o peso da expectativa: com
a leveza da experiência.
Em um ano, tem gente que aprende inglês, aprende a dirigir, a praticar
yoga, ou tudo isso junto. Eu aprendi a ser um pouquinho mais leve. Aprendi a
apostar mais na minha opinião, na minha independência algumas vezes tão
frágil, na autoconfiança e acima de tudo na sorte. E se eu pudesse
apostar nela, apostaria duas vezes.
Conheci um pouco mais as regras da casa, porque o mundo às vezes é muito
complicado. Agradeço todos os dias, por todas as coisas, pessoas, lugares,
perspectivas e experiências. São elas que me fazem quem eu sou e vão me
moldando ao longo do caminho.
Hoje eu convivo melhor com meus dramas, problemas e limites. Após vinte
e uma repetições, eu sei arriscar mais, julgar menos, me doar ao máximo e me
desgastar o mínimo possível. Sei o que vale o meu choro e o que não merece uma
lágrima. E agradeço mais uma vez a vida: os gestos lindos, as pessoas ao meu
redor, um simples olhar, um beijo, um carinho, uma bronca necessária e as
pessoas que abrem mão de muita coisa, só para compartilhar comigo um pedacinho
da nossa existência. É isso que faz a gente sobreviver.
Eu queria pedir felicidade, naquele desejo de aniversário que a gente
sempre faz, mas percebi a tempo, que ela sempre esteve aqui. Então o meu pedido
é: que nesta vigésima segunda repetição eu aprenda ainda mais a descomplicar a
minha vida. Todo resto, para mim, é secundário. E se não for, que venha mais um
tombo. Um dia eu aprendo. Pela vigésima terceira, ou quarta vez, mas aprendo.
O dia que a gente nasce vai ser sempre muito feliz e comemorado pelo
resto da vida. Mas com o tempo, a gente aprende a ser feliz e a comemorar todos
os dias.
Já pode cantar parabéns?
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