quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

End.

Ontem eu tentei ir ao cinema. Além das filas intermináveis, não havia mais lugares disponíveis para o filme que eu gostaria de assistir. Não tinha vaga no estacionamento. Não havia espaço para entrar em algum lugar para comer. As pessoas não se olhavam nos olhos, apenas nas descrições dos produtos. Os que não o faziam, estavam ocupados demais, conectados com o mundo lá fora, ainda que o mundo lá fora também fosse ali.

Ninguém repara se no topo da árvore de Natal tem uma estrela. Estamos sempre com pressa, com o tempo estourado e com a paciência também. Implico comigo mesma, quase o tempo todo. As pessoas dizem que eu sou chata, inclusive a minha mãe, e só me resta seguir com a minha chatice e ir vivendo. Minha geladeira tem comida suficiente para alimentar dois passarinhos. Magros, por sinal. Meu subconsciente me manda correr para ganhar tempo. A vida me manda pisar no freio para o tempo parar. Respondo tudo pelo celular. Eu deveria ir ao dentista, mas não consigo comparecer e muito menos marcar.

Nós todos fazemos um esforço enorme para sobreviver a jantares que não queremos ir, a reuniões que nunca acabam, as capinhas de iPhone que quase ganham vida própria. E é uma disputa eterna de quem consegue um horário no salão, quem comparece em mais compromissos em menos tempo, quem tem a foto curtida mais vezes.

Não lembro a última vez que consegui cumprir minha agenda e nem a última vez que recebi uma surpresa boa. Tenho preguiça de fila, de ansiedade e de gente que esvazia a prateleira e esquece de encher o coração. Daqui a dois dias, há uma profecia de que o mundo vai acabar, como na época dos dinossauros. Tudo isso, porque os Maias, assim como nós hoje, não tiveram tempo de assinalar um maldito calendário.

Estamos perto do fim e a culpa disso é nossa. Estamos distantes de nós e próximos de pessoas que estão do outro lado do mundo. Quando algo nos sensibiliza, saímos desse estado de transe e olhamos a vida com espanto. Como se tivéssemos passado pelo fim de tudo e resurgido, tomando café da manhã no dia vinte e dois. 

O dia em que o mundo acabar de verdade, vocês vão perceber que ele já acabou faz tempo. Você só estava ocupado demais, furando a fila do supermercado, avançando um sinal no trânsito, ou sendo mal educado com o garçom. E se o mundo não acabar sexta, pode ficar tranquilo. Mantendo o ritmo atual, a gente acaba com ele logo, logo.  



image,source: weheartit.com

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