terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Olhares cotidianos

Sou o tipo de pessoa que não consegue dar uma volta no quarteirão sem se emocionar. Esses dias, estava em um mercado de artesanato e olhei uma senhorinha que olhava os compradores, da sua barraquinha, com um olhar que me partiu o coração. Um misto de melancolia, esperança e tristeza. Não demorei mais que 5 segundos para perceber isso e demorei menos ainda para me emocionar. As dores alheias estão estampadas na cara, mais especificamente nos olhos, mas pouca gente vê. Fiquei próxima a barraca durante uns 5 minutos, observando. Pouca gente olhou pra barraquinha dela. E menor ainda, foi o número de pessoas que se deu o trabalho de olhar para ela.

Chinelinho de dedo, vestidinho de pano, coque nos cabelos brancos, algumas rugas que o tempo se encarregou de trazer, outras que a preocupação cotidiana tratou de colocar. Seu artesanato talvez, seja a única forma de sobrevivência em meio a carros importados e roupas de grife. Sua esperança talvez, seja a única sustentação da sua alma sofrida.

Jurei que enquanto tivesse grana, iria ajudar a quem precisasse, de criança a flanelinha. Sai de lá com o coração partido, uma lista de coisas para agradecer e algumas rugas, do tipo preocupação: me preocupei com o futuro da velha senhora, com a minha sensibilidade exagerada e com as pessoas desse mundo, que enxergam, mas não conseguem ver.

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