quinta-feira, 26 de julho de 2012

Entrelinhas

Acho que a melhor coisa que compartilhamos são os sorrisos. A gente ri junto, porque acha graça da vida, ou talvez essa seja a nossa forma de ficar mais perto. Você é leve de espírito e me dá uma vontade danada de ser igual. Mas eu penso demais, falo demais, quero demais. Já quis tanta coisa na vida que quando tive, perdeu a graça, que aprendi a rir disso também. Você chegou bagunçando tudo, nessa forma displicente de quem sorri bonito e se preocupa muito pouco. Eu, que nunca quis ter nada, quis ter você. 

O medo de que tudo perdesse a graça, virou piada. Pela primeira vez, eu acordei no dia seguinte e quis que o telefone tocasse, que alguém se importasse, que a gente escrevesse junto uma comédia romântica. Porque eu não sei nada sobre o romantismo, mas achar graça das coisas, eu sei até demais.

Algumas vezes, o meu riso se transforma em lágrimas, mas são poucos os que me veem assim, ou me fazem chorar. Você já viu, já sorriu amarelo para minha cara de choro e me fez dar gargalhadas para esquecer, porque no fundo, nada importa tanto assim.  Eu consigo ver que até aqui, a gente escreveu uma história feliz. Que o riso não contido e a felicidade guardada nas poucas fotos que temos juntos é verdadeira. Sem pensar muito, damos um passo atrás do outro e a gente brinca, que dá para ser feliz hoje. Amanhã a gente vê depois, sem planos, sem pressa. 

Talvez algum dia, a gente leve as coisas mais a sério e eu te dê um cachorro, sem o medo de que você vá embora e o leve junto. Esse medo do tchau é de alguém que não sabe lidar com isso, porque cresceu entre despedidas e não aguenta mais ver as pessoas indo embora. Mas talvez, quem sabe, você queira ficar. 

No fim das contas, a gente acha que é amor. Porque a gente divide o sono, a preguiça, o ciúme disfarçado, as conquistas, o refrigerante e o chocolate Alpino. A afinidade é expressa nos sorrisos, comentários sobre a novela, o futebol, a festa e a música.

Talvez a gente tenha uma história com trilha sonora bonitinha ao fundo, digna de cinema. Ou talvez a gente se canse de tudo isso. O que eu sei é que hoje, você escreve mais um capítulo com sua gentileza, seu cuidado, sua preocupação, sua mania de fazer gracinhas pra eu rir e esquecer meus problemas. E as brigas,  as discórdias e os resmungos são pequenos, diante de uma amizade e de um gostar que só aumenta.

A gente sabe aonde cada um chegou sozinho. Você aprendeu a se virar, a levar uns tapas da vida e seguir em frente, a segurar a saudade e a entender que é preciso ir embora de casa, para entender o valor desse lugar. Eu também. A gente sabe muito bem viver desacompanhado, sabe que a vida pode ser cinza, e sabe também que pouca gente se permite sentir um pouquinho de amor e resolver correr os riscos que vem junto. E nós resolvemos arriscar uma história que pode parar em uma caixinha de lembranças com fotos empoeiradas, ou em um álbum lindo para mostrar para os netos. 

Para mim é um absurdo, uma pessoa do riso tão bonito não sentir cócegas e para você, é um absurdo o quanto às vezes eu dou risada de coisa besta. No fundo, tudo isso pouco importa. O que vale é o hoje, em que a chance e a sorte sorriram para nós. 

Eu troquei a estabilidade de andar só, para dar lugar ao frio na barriga de vez em quando. A recompensa é um abraço gostoso, que só quem gosta sabe dar. Minha única certeza é que estamos correndo vários riscos. Inclusive o de ser feliz.


image,source: weheartit.com

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