Acho justo reconhecer que nunca imaginei ter um gato. E muito menos um
gato que ama sorvete e que convive pacificamente com dois cachorros, uma
especialmente eufórica, para não dizer maluca. Até que um dia minha irmã me
ligou e disse “tem um gatinho sem dono aqui na casa da minha avó...”, mal
concluiu a frase e eu já disse que ele era meu. Eu nunca tinha visto a sua cara
mal humorada, nem seus olhos azuis, que às vezes me olham com saudade.
Meu novo amigo de quatro patas, tinha cara de poucos amigos e um nome
peculiar. Ele era um bebezinho lindo, na verdade. Um ano depois, nosso amor só
fez crescer, assim como a sua barriga. Eu aprendi que ele não gosta muito de
ser acordado pelo farol do carro, quando chego da faculdade e me olha com
aquela cara de o-quê-essa-louca-tá-fazendo. E que me perdoa rapidamente se eu
fizer um cafuné.
É estranho contar isso para vocês. A maioria não conhece esse
personagem, ou só o viu por foto. Vocês não sabem como ele sempre olhou, que
ele deita na porta do banheiro para esperar eu sair do banho, não sabem que ele
dorme a vida inteira se deixar, que foi o bichinho mais rabugento que eu já
tive, que meu quarto é lugar que ele mais gosta no mundo e que tudo o que ele
mais quer na vida, é um colo para ficar pisando.
Acho que nunca briguei com ele. Na verdade, eu brigo comigo mesma, por ter tão pouco tempo para ele. Seu olhinho brilhando, me corta o coração.
Se eu pudesse, deixaria ele dormir na minha cama, como fazia
quando era bebê, compraria sorvete Laka que ele tanto gosta e passaria o dia
fazendo carinho no seu queixo!
Conviver com meu gatinho e com todos os cachorros que já tive, foi a
maneira mais bonita de aprender a amar e crescer. Eles sabem amar, mesmo quando
você passa o dia todo fora, sem sequer dar uma coçadinha no seu pelo. Eles
entendem quando você viaja e o almoço atrasa um pouquinho. Eles fazem a maior
festa do mundo, quando você chega em casa, com exceção do meu gato mal
humorado, é claro. Eles precisam de nós para beber água, comer, sobreviver. E a
gente precisa deles, para aprender sobre cuidado, sobre um amor tão grande, que
quase não cabe em nós, quem dirá neles.
Não queria que as coisas fossem assim, amigo. Nunca pensei que ficaria
sem você e prefiro continuar não pensando. Obrigada por me amar como você me
ama. Obrigada por me ensinar tanta coisa. Ontem eu pensei em você a noite toda
e mal dormi, pensando que você poderia estar na chuva, com frio e com fome. Desculpa
se eu não pude fazer muita coisa. Volta logo. A gente te ama demais.

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