quinta-feira, 9 de maio de 2013

Visitante.

Um belo dia eu abri a porta do quarto e a tristeza está lá, sentada no cantinho, ao lado do móvel cheio de livros me olhando. Diz bem baixinho que não adianta reclamar. Ela ficará apenas o quanto for necessário e jura por Deus que não incomodará:

-Preciso apenas de um espaço para tornar as coisas mais reais vez ou outra. É pedir demais?

Eu, com pena da cara de pobre coitada, permito. Uma tristezinha não deve fazer tão mal assim.

Chego em casa no dia seguinte, depois de longas horas de sorrisos, conversas e problemas resolvidos. Coloco os chinelos, coloco Kings of Leon para tocar e me pego pensando por onde andará aquela tristezinha. Estive ocupada o dia todo que nem sei onde ela se enfiou. Abro a porta do quarto e ela está deitada na cama, tamanha a folga.

-Achei que não tivesse problema se eu ganhasse um pouco mais de espaço. Você sabe como é, as coisas com o tempo vão tomando proporções maiores e trazem consigo dores igualmente compatíveis.

Ela é esperta. Quando a vi deitada na minha cama, tomando um espaço que era meu e de mais ninguém, senti uma pontada no peito e um frio na barriga. 

-Quando é que você pretende ir embora? - intimo.


-Quando você resolver a bagunça que mora aqui dentro. - responde, cheia de si.


Cansada, sentindo que aquilo não levaria a lugar nenhum, decido dormir no chão mesmo, ao lado da minha cama quentinha onde a tristeza dormia. Não sentia raiva. Apenas achava que assim, com tanto conforto e vida mansa, ela passaria de tristeza para alegria e me deixaria em paz. 


Nada feito. Acordei na manhã seguinte com a mesma pontada no peito, o frio na barriga e as costas pesadas. Não era fácil aturar a tristeza ali dentro. Olhei e vi que ela havia tomado a casa inteira. Onde quer que eu olhasse, havia algo dela. Minha vista embaçou e tudo o que pude ver foi a tristeza rindo da minha cara.


-Tá vendo no que dá? Você é lerda demais criatura. Você acha que eu não vi quantos sapos você engoliu lá no fundo? Quantos nãos e indiferenças tem naquele armário? Me poupe. Achou que eu nunca iria aparecer? Cheguei de mansinho esperando uma atitude e você não disse nada. Viu eu me instalar por todos os cantos e não fez nada. Nem uma briguinha, nada. Qual é o seu problema? - ela desabafou, gritou e quase me bateu. Eu, mal conseguia encará-la. 


-Olha se você tá dizendo tudo isso, eu acho que você tá certa, sabe? Eu devo merecer essa merda toda. Fica a vontade aqui. E se eu tiver incomodando me avise, por favor. 


- Desisto - a tristeza estava vermelha - tive a impressão que estava furiosa comigo. Bateu a porta e me deixou ali, sentada no chão. A tristeza foi embora. Eu notei quando ela saiu, mas continuei por ali. Resolvi não ir tão rapidamente de encontro a alegria. Se a tristeza resolver voltar por agora, ainda vai me encontrar aqui com a indiferença. Tomara que ela demore um tanto mais. 

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