terça-feira, 30 de abril de 2013

Prioridades

Atravessei a rua depois de olhar para os dois lados. Olhei para os meus tênis velhos e não consegui pensar em nada melhor para calçar. Pensei nos milhões de listas que construo mentalmente e resolvi estabelecer as prioridades. Aí pensei nas prioridades da minha vida e não consegui pensar em nada programado para mais que dois meses. O que a vida me obriga a querer depois disso? Digo isso, porque nunca estamos satisfeitos. Nunca. Continuo andando e olhando as milhares de folhas que caem no chão a todo momento. Será que alguém já se importou com isso? Será que alguém lamentou a folha caída ou os tênis surrados? Eu tenho feito isso com frequência.

Olho para o lado. Vejo vidas tão confusas, quanto belas – assim mesmo, igual letra de música. Vejo gente esquecendo o que é importante na vida. Olho mais para o canto e vejo outras imersas em suas rotinas para não pensar tanto no caos que é estar aqui. E ao centro, vejo gente querida, que tem andado para frente, enquanto deixa muita coisa para trás sem nem perceber. Dolorido isso. Porque muitas vezes a gente segue vivendo, sem pensar, sem olhar muito. Quando vai ver, nem sabe o que se passa com quem estava logo ali ao lado.  

Sobre estabelecer prioridades eu sei bem. Sobre ser prioridade para os outros, quase não entendo. Não devo ter nascido para isso. Enquanto isso, chego em casa e tiro meus tênis. Coloco-os junto aos sapatos mais bonitos do armário. E sigo pensando que esse negócio de se importar demais com os outros, talvez dê muitas dores de cabeça e outras, maiores ainda, no coração.

E me pergunto, como é que se arruma a vida em prioridades se a cada minuto aparece algo mais interessante. E eu não sei ser interessante. Sou essa coisinha que fica por aí, meio ocupada, meio relapsa, meio arrumada e com meio sorriso. Tem um mundo lá fora, mais colorido, mais vasto, mais brilhante. Cheio de coisinhas mais felizes, mais desocupadas, mais atentas e arrumadas. Esbanjando sorrisos. Em que ordem das prioridades entra o coração?

Olho para o espelho e tudo o que consigo ver, são os reflexos daqueles tênis velhos: olhos cansados, rosto pálido e aparência cansada. E penso: se fosse prioridade fingir estar bem, você tomaria um banho e passaria duzentos quilos de maquiagem na cara. Mas como li por aí uma vez, não existe maquiagem para a alma. Acontece que se fosse essa a prioridade, o ser humano trataria de inventar. 



image,source: tumblr.com

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