Eu escrevo para não ter que
torrar a paciência de ninguém e no final das contas, quase sou feliz. Eu quase
me lembro de datas especiais, mas aí a música no rádio, o trânsito, meu celular
me distrai. Eu quase montei um álbum lindo com fotos bonitinhas de vários
momentos que eu não consigo guardar na minha pouca memória, por fim lembrei que
é na minha bagunça que mora a graça da coisa. Eu quase me empenho em aprender a
cozinhar, mas aí me lembro do macarrão instantâneo no armário. Eu quase tive
uma família de comercial de margarina, até que um dia cada um resolveu seguir
seu próprio umbigo e eu fiquei aqui, me preocupando com o umbigo alheio e
tentando achar meu próprio caminho também. Eu quase quero ter filhos, mas ainda
não tenho histórias bonitas para contar. E quase fiz uma coisa certa na vida.
Foi por pouco. Eu quase tenho o perfil mulherzinha: uso esmaltes, compro
sapatilhas e olho atentamente a balança, para que o jeans 38 entre e as reclamações
típicas sobre o peso saiam. Só que tem o futebol que eu assisto, o MMA e o meu
interesse por videogame, ainda que nem jogar eu saiba. Eu quase engano que sou
alegrinha o tempo todo, mas aí alguém descobre um pedacinho triste e cansativo
que poucas pessoas conhecem. Eu quase não tenho apego, ciúmes e aquele eterno
mimimi. E quase tomo cuidado para que as pessoas entendam que o meu afeto
exagerado é apenas a minha maneira de gostar. E quase não me encanto com
comédias românticas e fico parecendo uma idiota emocionada, mas aí o lado
mulherzinha aparece. No fim das contas, eu quase consigo viver em paz. E
pensando bem, eu quase tenho sorte. O problema é esse quase, que nunca me
deixa.
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