Com os dois pés no chão, enxergamos que amor não se pede, atenção ao se implora e intenções, por mais bonitas e bem vistas que sejam, são só coisas que alguém pretende fazer, algum-dia-quem-sabe. Com a cabeça no lugar, entendemos que o telefone não precisa ser atendido quando toca, a porta não precisa ser aberta quando a campainha soa e o whatsapp por esperar mais uns minutinhos. Aliás, tudo isso, tem outro nome, confesso. Maturidade. Maturidade é perceber que a vida vai dando certo devagarzinho. Que seus planos mirabolantes podem ser simplificados. Que tudo bem, faltar na aula da academia para assistir um filme idiota na TV. Tenho aprendido a duros tapas e a longas penas sobre isso. E tudo bem. Sofrer alguns arranhões é inevitável. Já chorar pelo Mertiolate ardido, é opcional.
Brincadeiras à parte, assisti a um filme idiota ontem na TV e a personagem principal poderia ser você, eu, sua vizinha ou a minha prima. Sempre tão errada, tão relapsa, tão certa de que sua ideia fixa daria certo. Foi preciso para ela, literalmente, cair em um buraco, para dar um tempo nas fantasias e insanidades, respirar fundo e perceber é preciso calma até quando se está a, sei lá, quantos metros do chão. O tombo dela foi feio, mas como na TV e no cinema tudo dá certo, ela estudou física no colégio e soube sair daquele buraco enorme. Mas na minha vida, na sua, da sua vizinha e da minha prima, as coisas são bem mais reais. E se cairmos em um buraco, o tombo vai ser feio. Vamos ralar os joelhos. Vamos sentir dores pelo corpo por longos dias. Talvez a gente passe sede, fome. O que mais pode nos acontecer? Tudo. Se cairmos, com sorte, depois de um longo tempo lá embaixo, arrumaremos um jeito de sair.
Esse buraco pode ser, como no filme, fundo, cheio de terra batida e com uma fossa estrategicamente posicionada ao centro. Ou pode ser um amor que você implora, a atenção que você faz tudo para ganhar e nunca vem. As ligações que você atende desesperadamente e só resultam na pergunta mais clichê dos últimos tempos: “novidades?”.
Maturidade é tentar aprender com filmes sobre buracos, metáforas idiotas, arranhões e atenções imploradas. É tentar tirar algo positivo da sua história, ou da história da sua vizinha. Maturidade envolve joelhos ralados, mertiolates ardidos e a condição de entender que sofrer é uma forma de descarregar o que se sente, encher o peito e, a vida, de ar puro, e encarar o que a vida nos trouxer.
Com sorte e com os dois pés no chão, depois de um longo tempo “lá embaixo”, arrumaremos um jeito de sair.
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