Minha avó foi um belo retrato do
que queria ser. Criou seus três filhos, viu crescer seus quatro netos e sobreviveu
a perda do companheiro. Tudo isso, sem se deixar abalar. Fez tudo isso e ainda
arriscou uma vida rock’n roll, enquanto muita gente permanece em tediosos
boleros.
Seus filhos preocupados com sua
pressão, com seu sedentarismo, com essa vida de quem bebe demais e fuma demais.
E ela, nem aí. Assumia sua conta e pagava o preço. Ensinava tudo errado, com
seus exemplos e achava graça. Ria na cara do que tirava o sono de muita gente.
Gastava seu pouco dinheiro em bebidas,
cigarros, nos mesmos botequins de sempre. Era cliente fiel, ainda que jurasse
que este, era o último copo. O último trago. Conhecia muito bem suas
limitações, embora soubesse ser feliz mesmo quando reclamava dos problemas.
Nunca fugiu de ser o que era, nunca
tentou ser outra pessoa. Bateu no peito e não teve segredos: se queria namorar
um cara da idade do meu pai, o faria. Se
a vontade de beber batesse, ela atendia. Se tivesse uma reclamação de você, falaria.
Com algum choro, mas sem nenhuma vela.
E seus olhos brilhavam. Não sei se
de tristeza, pelo rumo que a vida tomou, se de nostalgia, por todas as coisas
boas que viveu, ou na esperança de que viessem dias melhores.
Minha avó nunca me contou
histórias sobre a sua vida, como as outras avós o fazem. Compartilhávamos do mesmo problema de pouca
memória, para nossa sorte.
Ela me ensinou que dá para seguir
em frente, mesmo quando alguém que a gente ama se vai, como ela fez, quando foi
a vez do meu avô. Me ensinou a sorrir, mesmo quando as coisas não vão muito
bem. Com ela, eu aprendi que é importante olhar para o lado, mas é mais importante
ainda olhar para dentro. Se conhecer. Se dar o trabalho de saber quem você é.
Fez como Keith Richards: aceitou
seus vícios, encarou com humor e livrou-se da culpa. Você pode até duvidar, quando
eu digo que minha avó me contou a mesma história vinte vezes, só não pode duvidar
do seu amor. Deus sabe, o quanto ela amou. Alguns mais que outros.
Soltava um palavrão para potencializar
um elogio. Viajou pouco, mas sabia muito de si mesma. Deu um duro danado na
vida, isso ninguém pode contestar. E teve a coragem de ser quem queria e viver
a vida que escolheu. Muita gente passa a vida inteira esperando a aprovação
alheia, com medo de agir, ou sequer pensar por si só. Ela não. Ela sabia o que
queria e o resto, meus amigos, que se dane.
Vai ser impossível não sentir saudade
da ressaca matinal, do café ou do riso feliz que dispensava uma vida certinha. Com a coragem de um tempo que já passou, ela se foi. Mas sua vontade
de viver até a última gota, vai ficar para sempre.
Parafraseando Arnaldo Jabor, minha avó não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ela.
Parafraseando Arnaldo Jabor, minha avó não era ninguém. Mas nunca houve ninguém como ela.
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| image, source: tumblr.com |

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