Já ouvi muitas profecias a respeito da minha solterice convicta e do meu futuro de solidão, chocolate, televisão e uma casa cheia de gatos. Minha avó, primas, tios, amigos, pai, mãe, cachorro, oráculo online e tirinha de jornal – todo mundo já teceu um comentário sobre a minha solidão eterna por ser chata demais, exigente demais, confusa demais. Acho que o meu maior problema não é a chatice, exigência ou confusão e sim, esse excesso – o demais que todo mundo acrescenta quando me define com algum adjetivo. Eu quero tudo que tudo vá além e vivo um interminável massacre mental. No fundo eu sei que se trata apenas de autoflagelação. Por que eu não me contento com o que a vida oferece e simplesmente me encaixo no padrão? Porque a minha vida nunca foi assim. Acho que quando eu quero alguma coisa é sempre demais e acabo por fazer tudo errado. E nessa condição, eu poderia ter um affair por mês, ir a uma balada por noite e acompanhar meus trinta milhões de amigos que sempre tem algum evento considerável. Mas nem isso eu faço. Em contrapartida, poderia namorar, noivar, casar, ter três filhos e dar banho no cachorro no domingo de manhã. Mas eu sequer tenho um namorado. Poderia também, encarnar o papel de modernete, que banca a inteligente, segura de si, decidida, independente e descolada. Mas até minha mãe critica o meu amor pelo retrô e minha indecisão declarada. Quem me conhece, sabe a minha dificuldade em sequer aceitar um convite para um misero encontro – tudo isso é muito bem camuflado dentre as milhões de festas que meus amigos arrumam, que todo mundo vai e eu acabo por ir também. Sou quase a Tartaruga-das-galápagos-de-pinta, uma espécie em extinção, que sabe Deus o que será do seu futuro. Mas consigo ser bem clichê e comum, na maior parte do tempo. Adoro uma bobice em comum com qualquer pessoa e fico achando que isso é destino. Acredito cegamente em comédias românticas que só me idiotizam a cada dia. E acredito que ainda vou suspirar demais, amar demais e ficar ainda mais idiota com ligações e outras cem coisas que só quem ama, sabe – ao contrário das previsões cabalísticas de todos a minha volta. E lamentavelmente, conheço um monte de gente que não está disposta a passar por esse ridículo que vale tanto a pena, diga-se de passagem. Por hora, aproveito as pequenas alegrias que a vida me dá e tomo cuidadosamente a precaução de não ligar para previsões, profecias e tantas outras tragédias anunciadas no meu futuro amoroso. Se ao dormir eu estiver feliz, todo o resto é secundário.
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