Trabalho o dia inteiro com
propaganda, vendendo desde parafusos que não sei manusear, até restaurante que
eu nunca sequer experimentei um prato de arroz. E eu amo muito tudo isso.
Mas o universo da propaganda, às
vezes me entristece, quando uma marca incentiva o filho a ter vergonha do pai,
a mulher que diz que a fila anda, o shampoo que diz acabar com o friz, com as
pontas duplas e quase cura o câncer, refrigerante que acha que é serotonina
pura.
Gosto de propaganda que desperta
o amor de mãe e filho, que mostra bebezinhos de uniformes olímpicos, me dizendo
para acreditar no futuro. Gosto de propaganda que diz que vale a pena investir
nos bons momentos. Propagandas que dizem: o amor é importante, porra. E que
censure o palavrão, é claro.
Nos comerciais eu quero sorrir, acreditar
e me divertir. Aí quem sabe, talvez, comprar. Eu não quero prestações para o
resto da vida, nem achar que a alegria está em um pote de creme, ou que o mundo
é ruim, que a humanidade é um projeto que não deu certo e que isso é o que
temos para hoje. Quer que embrulhe para presente?
A televisão tem o dever de me fazer acreditar
nas coisas bonitas, mesmo que eu nunca vá comprar o carro do comercial que me
diz, que a melhor época da minha vida, é agora.
Enquanto existir gente por aí
dizendo que a vida é bonita, mas pode ser linda, eu vou continuar acreditando no
poder da propaganda. Um poder que não só vende um produto, mas espalha brilho
nos olhos e muitos sorrisos por aí. Se isso não acontecer, está na hora de
mudar de canal.
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