Esse negócio de querer dias extraordinários, todos
os dias, cansa. Cansa querer ter dinheiro, educação, saber as notícias do
mundo, aprender outra receita além do miojo, ter que comprar coisas que
eu nem quero e virar escrava do relógio do celular. Cansa!
Quem inventou tudo isso? Eu juro que acordei querendo
ser melhor que ontem, mas o cansaço tomou conta. Queria ficar quietinha,
ganhando cafuné na cabeça. É pedir muito?
Viver não deveria ser um fardo e dar trabalho.
Deveria ser caixinha de presentes, com laço e fita. Mas dá uma olhada na vida
das empreguetes. Nem a vida delas é fácil. E olha que elas moram no Projac.
Não quero aprender verdades, nem inventá-las. Não
quero decidir entre débito e crédito. Não quero uma terça-feira fria, no calor
infernal dessa cidade.
Quero sms bonitinha. Quero tomar café da tarde e
assistir a qualquer porcaria da televisão. Quero ter tempo de ler revistas,
artigos e quem sabe um dia, livros. Quero que as pessoas demonstrem que
se importam um pouquinho, só pra variar. Só para suprir meu eterno lado
dramático e carente.
Virei uma escravinha, que achava que surfar nessas
ondas gigantes era moleza. Por mais que essa porcaria de tsunami me leve, eu
ainda quero tentar nadar em paz. Cadê a minha carta de alforria da humanidade?
Cazuza queria a sorte um de um amor tranquilo, isso eu já tenho e vai muito bem, obrigada. Agora eu quero a sorte de tentar dormir mais meia hora, se não for pedir demais.
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