Durante toda a minha infância, eu
tive um problema sério com cachorros abandonados. Quase enlouquecia minha mãe:
bastava ver um magricelo, com olhos de tristeza e pronto, chorava uns dois
dias. Eu queria que ele tivesse uma casa. Comida decente. Água para beber.
Carinho. Só isso.
Mentira. Eu queria era levar ele para
minha casa. E minha mãe, que sempre me deixava ter dois cachorros, para não enlouquecer,
mudava de rota, de rua, de calçada. Usava aquele truque antigo de “o que é
aquilo no céu” ou “você se lembra daquela mulher do outro lado da rua?”. Eu
sempre caia, olhava para o céu, para a pessoa, sem entender nada. Tudo para não
ver sua filha se acabar em lágrimas. Ou talvez, porque até ela estivesse
cansada da minha ladainha e de me consolar.
O tempo passou, eu parei de
chorar e os cachorros me atormentam até hoje. Mas o que me atormenta mais são
as pessoas que não conseguem vê-los. Passam direto e ignoram! Será que minha
mãe tem distraído eles?
As pessoas só notam os cachorros
de rua, se você estiver dando atenção. Sempre que aparece um na minha porta, eu
dou pão, leite, ração. Já tive a capacidade de sair embaixo de tempestade para
colocar uma coberta e comida para um cachorro que estava escondido, com frio e
com fome. E as pessoas me olham como se a culpa de eles estarem ali fosse
minha. Se os cachorros estão na rua foram vítimas de abandono ou negligência.
Queria lembrar que eles não brotam do chão.
Quando eu dou carinho para um desses,
as pessoas me olham com aquela cara de
olha-aquela-louca-mexendo-com-aquele-pulguento. E eu? Eu não tô nem aí. Quando
eu deixo de comer alguma coisa para compartilhar com meu amigo de quatro patas
então, meu Deus. Recebo olhares recriminadores. Mas eu entendo. É mais fácil
ficar fazendo campanha pro Panda da China, ou para uma Arara-azul que você
nunca viu, no conforto da sua internet banda-larga. Olhar para o lado e levantar
da cadeira, é mais difícil, eu sei.
Ninguém pede para eu dar metade do meu lanche, para um
cachorro abandonado. E eu não ganho nenhum prêmio por fazer carinho em um
bichinho que de tão sujo, a gente quase não enxerga sua cor. E eu não quero
prêmio e nem passar atestado de boazinha. Quero que cada um faça sua parte.
Porque tem gente que me fala que “o problema está em todos
os lugares” e que “dar comida para dois cachorros não vai resolver o problema”.
Mas eu faço o que posso, pelos meus amigos de quatro patas. Faço o que meu
bolso aguenta e o que meus olhos alcançam. Eu faço a diferença, pelo menos para
aquele vira-lata que está com fome e as pessoas não enxergam, ou não querem
ver.
E eles, que me criticam e não fazem nada?
Obs.: escrevi
esse texto, com a intenção de descarregar meu stress momentâneo com uma senhora
que fez cara feia e resmungou, por eu dar comida para um gato que estava
passando na rua.
Obs. 2: Esqueci
de comentar, que minha história não é só com os cachorros.
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