sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sem dono.


Durante toda a minha infância, eu tive um problema sério com cachorros abandonados. Quase enlouquecia minha mãe: bastava ver um magricelo, com olhos de tristeza e pronto, chorava uns dois dias. Eu queria que ele tivesse uma casa. Comida decente. Água para beber. Carinho. Só isso.

Mentira. Eu queria era levar ele para minha casa. E minha mãe, que sempre me deixava ter dois cachorros, para não enlouquecer, mudava de rota, de rua, de calçada. Usava aquele truque antigo de “o que é aquilo no céu” ou “você se lembra daquela mulher do outro lado da rua?”. Eu sempre caia, olhava para o céu, para a pessoa, sem entender nada. Tudo para não ver sua filha se acabar em lágrimas. Ou talvez, porque até ela estivesse cansada da minha ladainha e de me consolar.

O tempo passou, eu parei de chorar e os cachorros me atormentam até hoje. Mas o que me atormenta mais são as pessoas que não conseguem vê-los. Passam direto e ignoram! Será que minha mãe tem distraído eles?

As pessoas só notam os cachorros de rua, se você estiver dando atenção. Sempre que aparece um na minha porta, eu dou pão, leite, ração. Já tive a capacidade de sair embaixo de tempestade para colocar uma coberta e comida para um cachorro que estava escondido, com frio e com fome. E as pessoas me olham como se a culpa de eles estarem ali fosse minha. Se os cachorros estão na rua foram vítimas de abandono ou negligência. Queria lembrar que eles não brotam do chão.

Quando eu dou carinho para um desses, as pessoas me olham com aquela cara de olha-aquela-louca-mexendo-com-aquele-pulguento. E eu? Eu não tô nem aí. Quando eu deixo de comer alguma coisa para compartilhar com meu amigo de quatro patas então, meu Deus. Recebo olhares recriminadores. Mas eu entendo. É mais fácil ficar fazendo campanha pro Panda da China, ou para uma Arara-azul que você nunca viu, no conforto da sua internet banda-larga. Olhar para o lado e levantar da cadeira, é mais difícil, eu sei.

Ninguém pede para eu dar metade do meu lanche, para um cachorro abandonado. E eu não ganho nenhum prêmio por fazer carinho em um bichinho que de tão sujo, a gente quase não enxerga sua cor. E eu não quero prêmio e nem passar atestado de boazinha. Quero que cada um faça sua parte.

Porque tem gente que me fala que “o problema está em todos os lugares” e que “dar comida para dois cachorros não vai resolver o problema”. Mas eu faço o que posso, pelos meus amigos de quatro patas. Faço o que meu bolso aguenta e o que meus olhos alcançam. Eu faço a diferença, pelo menos para aquele vira-lata que está com fome e as pessoas não enxergam, ou não querem ver.

E eles, que me criticam e não fazem nada?

Obs.: escrevi esse texto, com a intenção de descarregar meu stress momentâneo com uma senhora que fez cara feia e resmungou, por eu dar comida para um gato que estava passando na rua.

Obs. 2: Esqueci de comentar, que minha história não é só com os cachorros.

image,source: google.com

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