Meu coração mole sobreviveu à
cidade de pedra. E às vezes parece que nele cabe muita gente, exceto eu e meus
dramas: não tem espaço para nós dois lá. Tenho que me achar corajosa, para não
parecer idiota.
Não sou capaz de revidar com um
tapa, os socos que a vida sempre me deu. Queria ter tempo para aquele chororô
ridículo que eu arrumo vez ou outra. Mas descobri que hoje em dia, ninguém
chora mais, para não ter que dar desculpas, para não parecer fraco e para não
expor que a vida anda bem difícil. Muita gente guarda sua dor no coração,
que aos poucos, endurece.
Hoje eu queria um abraço. Mas como
eu sei que abraço é artigo de luxo, tenho meu travesseiro, que me bota para
dormir depois da terapia. Assim, eu aguento o tranco, as fisgadas, os socos da
vida e a solidaozinha que sempre esteve aqui. Funciona. E eu me concentro em
manter meu coração calejado, flexível. Depois de tanto bater, talvez um dia a
gente faça as pazes e ele me dê um cantinho para morar.

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