Aos oito anos de idade, passei então a me preocupar seriamente com a minha saúde do meu peito e resolvi deixar de ser coração mole e selecionar muito bem as pessoas que deixaria entrar nele e quem poderia eventualmente colocar uma rachadura em algum cantinho do tão jovem e já despedaçado coração. Segurei firme as pontas, ensaiando um coração de pedra, para que as pequenas tragédias deixassem de me atingir, assim o sangue poderia correr em paz e eu, quem sabe, sobreviver um pouco mais.
Quando cresci, me esqueci por completo o medo de menina, que cuidava do coração como quem cuida de um bem muito valioso e sai por aí de todo o coração. Obviamente, ele foi sutilmente esmagado incontáveis vezes e eu sequer pude reclamar. Engolia o choro, acreditava cegamente na superação e seguia em frente, achando que isso era ter coração de leão, ou no mínimo, coragem.
Um dia, olhei para trás e vi aquela menininha de oito anos, tão cuidadosa, decepcionada com a minha falta de tato em cuidar do coração que lhe fora confiado anteriormente. Se o coração ainda fosse dela, ele não estaria tão partido. Já passou por tanta coisa, que ela ainda não entende como ele ainda bate, como ainda cabe gente nele. Expliquei para ela que eu não sou uma pessoa sem coração e que tenho cuidado dele com muito carinho. Disse também que quando eu cheguei aos vinte e um, quando ela achou que finalmente a decepção o venceria, ele bateu ainda mais forte, tão forte, que parecia de aço. Foi então, que eu bati no peito e não tive mais medo.
Contei, que não temi mais o que ela pensaria, o que ele sentiria ou o que eu poderia passar. Iria simplesmente viver a vida, com todas dores, decepções, mágoas e corações partidos. Para depois, juntar os caquinhos e recomeçar. Isso não significava, é claro, que dava meu coração a quem não sabia o que fazer com ele. Isso jamais. Ela, olhou para mim com um tímido sorriso nos lábios e disse "vai ver, foi por isso que deram ele a você... Para fazer das tripas, coração." Eu apenas sorri de volta. É...vai ver ela tem razão.
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