Se a minha vida fosse um filme, eu
estaria agora, sofrendo por um fato ocorrido no fim de semana, ou descabelada
pela reforma na minha casa, ou ainda passando quilos de base, em virtude das
minhas olheiras. Mas como esse roteiro é meu, eu prefiro uma rota alternativa. Porque
quem já pensa demais, sente demais, tem mil problemas para resolver, tem no
mínimo, mais o que fazer. Não dá tempo de ficar sofrendo aí, por coisas bobas
que as pessoas inventam. O dia de hoje acontece só uma vez e você vai gastar
seu tempo chorando arrastadinho no canto da sala? Eu não.
Se esta cena fosse parte de um
roteiro, minha casa não estaria com metade do chão destruído, com uma porta sem
vidro e com os ajudantes que só trabalham no fim de semana. O cenário seria
clarinho, talvez estivesse chovendo e teria um lindo sofá cor de rosa para eu
me sentar na sala, não na cozinha como eu estou agora. E meu sofá é marrom
claro. Uma cena em que a personagem sofre, requer no mínimo um cenário cheio de
dignidade para ela se reerguer no final do filme. A menos que o filme se passe no
Iraque, é claro.
Se eu fosse uma personagem de
filme, eu gostaria de ser aquela bonitona, poderosa, que só aparece com roupas
incríveis, que tem uma trilha sonora de dar inveja a qualquer avatar. Mas eu
sou mais o tipo feliz, distraída, desastrada e com aquela cara alegre que todo
mundo leva na brincadeira. Mas em algumas cenas, aprendi a falar sério.
A verdade é que a vida, graças a
Deus, não é ensaiadinha e nós personagens, podemos mudar antes que o filme
desande, sem precisar deixar para ser feliz só no final. Entre páginas
alegres e tristes, a gente pode sofrer o diabo, mas aprender a rir da vida.
Pode se machucar na corrida e descobrir como é bom exibir as cicatrizes como
troféus, lá na linha de chegada. E para não me achar uma louca em algumas partes, eu prefiro dizer que tenho coragem. De assumir minhas atitudes,
de me comprometer com quem eu amo e só, de passar perrengue e saber que tudo
passa.
Se a minha vida fosse um filme, eu
estaria agora andando por uma rua com um vestidinho floral com olhar perdido no
horizonte e um cabelo bonito que só vendo. E eu estou aqui, nesse sofá marrom
com uma televisão que é maior que a minha vontade de assisti-la, com um milhão
de coisas na cabeça e uma tranquilidade, que eu descreveria nas palavras de Los
Hermanos: “sereno é quem tem a paz, de
estar em par com Deus...”. Mas a minha vida não é um filme. Ainda bem.

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